Uma avalanche de pedidos de amor

Quando a internet chegou ao Brasil, em setembro de 1988, não tínhamos idéia da força deste recurso e de toda a revolução comportamental que causaria. Os seus novos usuários, timidamente, foram se familiarizando com as portas que se abriam para o mundo. Com os celulares “enormes” iniciamos os contatos por mensagens e aumentamos, aos poucos, nosso raio de ação.

Lembro bem quando comprei meu primeiro celular, o interessante era poder falar de qualquer lugar e ser localizada com mais rapidez, ainda era um recurso muito privado, só as pessoas próximas ou contatos profissionais tinham acesso ao nosso número de telefone móvel.

Nossa vida privada, sempre tão protegida de olhares externos ou de estranhos tornou-se vida compartilhada, com a entrada das redes sociais no nosso cotidiano. Esta mudança de comportamento trouxe com ela a exposição exagerada da própria vida e a demonstração abusiva da felicidade permanente. Esta necessidade de compartilhar tudo, do acordar até a hora de dormir, a demonstração de uma vida muito alegre e cheia de realizações, gera em muitos um sentimento de incapacidade e baixa estima, além da inveja da vida do outro.

Por que não sou tão feliz assim? Por que não sou tão bem sucedido (a)?

Por que a minha família não é tão grande e harmônica como a das outras pessoas? Por que meu casamento não é tão feliz quanto dos outros?

Todos estes sentimentos e questionamentos afloram com toda esta visibilidade do cotidiano do outro. Atualmente, sabemos quase tudo sobre nossos “amigos virtuais” (alguns totalmente virtuais, nunca os vimos pessoalmente) como vivem, como moram, o que comem, para onde viajam, o que seus filhos e cônjuges fazem e daí por diante. A necessidade, de muitos, de terem um grande número de amigos e de curtidas, só mostra o grau de carência afetiva dessas pessoas.

Quando nascemos, o olhar de nossa mãe e/ou dos que nos cuidam, auxilia na formação de nossa personalidade. Nossa mãe vai nos mostrando o que sentimos e estruturando quem somos. Estes cuidados iniciais, com amor e afeto, nos tornam fortes para enfrentar a vida. Porém, algumas pessoas têm dificuldade de ultrapassar corretamente esta fase e passam a vida toda buscando a confirmação de si mesmo no olhar do outro.

As redes sociais colocam em evidência esta necessidade individual de amor e admiração recebidos no início de nossa vida.

Outro dia li um comentário de um “amigo virtual” dizendo:” O que estou fazendo de errado. Por que ninguém curte o que posto? “Dá para perceber em sua colocação seu espanto diante de uma possível rejeição. Outras pessoas, postam até fotos dos medicamentos que usam e o quanto estão e/ou se sentem doentes. Com este comportamento estão esperando conforto e acolhimento em cada curtida e cada comentário.

Em resumo, há uma avalanche de pedidos de amor.

Aprecie-me! Ame-me! Cuide-me! Preocupe-se comigo! Olhe para mim!

Esteja ao meu lado! Acolha-me! Compreenda-me!

E tantas outras demandas de amor…

Além disso tudo, há a grande influência sobre o comportamento das crianças e dos adolescentes. Incitando-os a determinados pensamentos e sentimentos perigosos. E, também, há o comportamento abusivo de alguns pais expondo seus filhos pequenos em situações “engraçadas” que podem marcar, para sempre aquela criança.

Precisamos refletir sobre os limites entre o real e o virtual.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s